SEGUNDA-FEIRA
Havia algo de diferente naquele olhar. Os pratos jogados na pia mostravam o atual desleixo. Conversas na cama já se tornara algo corriqueiro. Diversas bitucas de cigarro denunciavam a ansiedade no ar. Como um míope fechava os olhos e não enxergava nenhuma evidência plausível para tais atitudes. Os livros na estante com dedicatórias ilustravam um tempo de intimidade passada. Álbuns de fotografias lotados de pessoas que já se foram denunciavam as perdas ao longo dos anos. Rugas na frente do espelho insistiam em tirar o ar sexy de seu corpo. Calmantes misturados no copo de conhaque não resolviam o aperto de seu coração. Queria falar algo inteligente para quebrar o gelo imposto ao longo do tempo. Algo belo e fraternal. Palavras cheias de vida. Frases diferentes daquelas destiladas por bocas cariadas no final de uma sessão de filme com rótulo cult. Procurei os familiares e ninguém sabia o efeito da tempestade. O aquecedor pifou. Nossas roupas rasgaram-se. Condomínios atrasados. Contas jogadas na escrivaninha. O gás ligado numa segunda –feira escondia no meio de um odor acre o corpo que um dia desejei e que agora tornara-se cinza e gelado.
Obs: O amigo Douglas Kim sugeriu que o nome deste meu texto fosse: Segunda-feira. Valeu Kim. O nome é este mesmo amigo
Escrito por anselmo às 17h30
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FIM DA MARATONA
Quatro dias de peças, poemas e música sem parar. A Satyrianas deste ano foi muito bacana. Eu praticamente não tive tempo de assistir nada. As leituras de poemas no Satyros 2 até que ouvi um pouco. Apenas de soslaio. Não dava para prestar atenção nos poetas; pois sempre havia um freguês a vasculhar um livro no sebo. Quem me perguntava pelo cansaço recebia a resposta: “Estou cansado e feliz”. O evento propiciou um bom giro de livros. Espero acertar algumas coisas e me preparar para o próximo ano. O poeta e amigo Chacal esteve presente com seu projeto CEP 20.000. O cara me presenteou com o livro Comício de tudo. Puta honra receber o livro autografado do cara. Estamos negociando o relançamento deste livro para dia 02 de dezembro. Será muito legal relançar o livro do Chacal por aqui. No último Sábado deste mês teremos mais um Desconcertos/ Sebo do Bac. Será o último deste ano. Meu amigo Marcelo Mirisola já avisou que seu livro “Fátima fez os pés pra mostrar na chopperia” já está no forno. O cara pediu uma data para relança-lo. Porra amigo! Você sabe que este espaço é seu também. O sebo é do público e dos amigos. Eu estou sempre sentado aqui a beber uma gelada. Às vezes com o humor meio em baixa. Mas sempre disposto a vender bons livros. Daqui a pouco teremos a penúltima apresentação da peça Kerouac. Vale a pena assistir. É sempre útil sair com um nó na garganta tendo a certeza de que a vida de Jack Kerouac se assemelha a muitas vidas. Aceito pessoas que não gostem da Beat. Mas não suporto acadêmicos metidos a sábios. Estes caras geralmente vivem numa redoma hipócrita a destilar seus pseudos-conhecimentos para meia dúzia de puxa-sacos. Ninguém entende a erudição babaca deles. Alguns aplaudem seus textos como se tivessem na frente de um gênio. Não sei ser deste jeito. Sou como Sergio Mello: “Não acredito no texto que não contenha vida”. Este negócio de barquinho é coisa pra bossa-nova Acredito que um jogo de futebol no asfalto seguido de uma roda de samba no boteco seja muito mais interessante do que textos sem vida. É triste saber que algumas pessoas produzam coisas apenas para si. Seria muito legal expandir textos para todas as retinas. O moleque no campinho de terra também quer ler. O leitor não é apenas aquele míope com cara de nerd sentado na cadeira de uma faculdade de letras a destilar seu intelecto para meia dúzia de senhores sábios e tão chatos quanto ele. Alguma coisa deveria mudar.
Escrito por anselmo às 13h28
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