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Sebo do Bac hoje no Caderno 2 do Jornal O Estado de São Paulo
 
Escritores, livros, carros

Marcelo Rubens Paiva

Aprendi a passar livros pra frente com o meu segundo pai, o editor Caio Graco, da Brasiliense, que morreu em 1992. Bastava visitá-lo, para ele me doar livros. Se eu levasse amigos, doava para eles também. Ele costumava dizer que livros foram feitos para circular, e para não mofarem em estantes de apartamentos fechados, como objetos de decoração.

Anselmo 'Bactéria' dos Santos, ou Bac, veio aqui em casa pegar os livros que comprei e ganhei. Encheu um carrinho de supermercado até o talo. Aproveitei e consignei 30 livros de minha autoria que publiquei nos anos 80 e 90. Acabaram de ser relançados pela Objetiva. Passei o ano reescrevendo-os; o sonho de todo escritor. Bac me perguntou quanto devia. 'Nada, cara, leva, é tudo seu.' No entanto, pedi para vender os meus 30 livros. Estranho. Como Cacilda Becker, não ofereci de graça aquilo de que tiro o meu sustento - mesquinhez de quem defende as regras do mercado.

Há anos, faço uma limpa de livros espalhados pela casa. Se falar a frase mágica, 'sou da zona sul', dôo na hora. Tenho uma simpatia enorme pelo Capão Redondo. Efeito da culpa pequeno-burguesa. Acho o lugar calmo e feliz. Todo mundo se conhece, cumprimenta-se. Mas sei que à noite mora o perigo. Levei há uns anos Paulo Lins, do livro Cidade de Deus, para conhecer Ferréz, de Capão Pecado, que chegou a montar uma biblioteca na área. A ligação Rio-SP da literatura de favela, se é que se pode taxar este gênero, foi capa de jornal. Sim, dá para taxar. O escritor Nelson de Oliveira acaba de publicar Cenas da Favela - As Melhores História da Periferia Brasileira, antologia de contos que tem até Drummond.



Escrito por anselmo às 18h42
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Bac é do Capão. Trabalhou como bilheteiro de teatro, administra um sebo virtual, o sebodobac, e atende no Satyros 2, teatro na Praça Roosevelt. Seu sonho é montar uma editora. Organizou uma coletânea de contos de escritores que freqüentam a Roosevelt, Brother Cactus (Editora Alaúde). Seu ânimo, capricho e paixão pelos livros me contaminam. Especialmente nos dias de hoje, em que a garotada lê pouco, num país em que despenca o número de livros vendidos, na razão contrária ao número de computadores novos despejados; em 2006, foram 7 milhões de computadores vendidos, sem contar os 'genéricos' (piratas e contrabandeados), levando o Brasil ao incrível terceiro lugar na lista de países em que mais se vendem computadores.

Doei a biblioteca dos meus pais, mais de 3 mil títulos, para a Biblioteca Municipal de Diadema - um projeto de inclusão social que funciona e atende também deficientes. Não vou para o céu só por causa desse gesto, apesar de me sentir na obrigação altruísta de fazer algo pelo País. No fundo, eles me quebram um galho, levando livros e esvaziando minha casa já entulhada.

Bem, é uma atividade mais compensadora para a alma do que desfilar de Mercedes pelos Jardins. Ou, não. Deixando de lado os preconceitos, vai ver passear de Mercedes pelos Jardins seja uma experiência metafísica. Na semana passada, vi o corso de Mercedes buzinando, e até acenei, já que estavam felizes, e é tão raro nos dias de hoje ver alguém feliz pelas ruas. Imaginei levarem o corso para passear no Capão. E, se a moda pegar, os caras do Capão poderiam desfilar seus veículos pela Oscar Freire, moradores de rua poderiam desfilar seus carrinhos cheio de latinhas, e os carroceiros, suas carroças com papelão. Donos de sebos desfilariam carrinhos com livros usados. Escritores desfilariam com suas aliterações. Atores desfilariam a Baco, velhinhas de andadores num dia, jogadores de tranca no outro, proprietários de Kombi... Vejo uma paz no fim do túnel. Seria um pacto social, uma forma de mostrarmos do que gostamos e o que podemos comprar.

A ida de Paulo Lins ao Capão, antes de o filme Cidade de Deus ser lançado, foi um acontecimento. O livro nem era tão popular; tinha prestígio, mas vendera pouco até então. No entanto, no Capão, muitos conheciam a obra que passava de mão em mão. Enquanto conversávamos com Ferréz num boteco, apareceram como saindo de tocas os leitores da área, que trocavam entre si livros. Claro que, além de Paulo Lins, os livros do próprio Ferréz e Estação Carandiru, do Drauzio Varella, passavam de mão em mão.

São esses meninos e meninas, a outra ponta da atividade literária, que nos fazem acreditar que para alguma coisa serve tanto esforço e tempo: escrever.


Escrito por anselmo às 18h41
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A Companhia das Letras financia 16 escritores brasileiros, que permanecerão, a partir de abril, em 16 cidades do mundo, para escrever histórias de amor - coleção Amores Expressos. Marçal Aquino (Roma), Antonia Pellegrino (Bombaim), Daniel Galera (Buenos Aires), Antonio Prata (Xangai), Lourenço Mutarelli (Nova York), Bernardo Carvalho (São Petersburgo), Adriana Lisboa (Paris), Sérgio Sant'Anna (Praga), João Paulo Cuenca, um dos idealizadores (Tóquio), e outros. O projeto é interessante, mas leonino. O autor vende por R$ 10 mil os direitos audiovisuais da sua obra. Um roubo. E não tem garantias de que ela será publicada.

As cidades são tão óbvias. Deveriam ir para Bogotá ou Caracas, New Orleans, Bagdá ou Teerã, Beirute, Luanda, Budapeste, Nairóbi, Porto Príncipe, Pyongyang, Tbilisi, onde as coisas estão realmente acontecendo. Amor de brasuca em Paris, Nova York, São Petersburgo? Preguiça...

A lista de autores não surpreende. Nem deve ter dado trabalho confeccioná-la. É boa. Seis são da editora. Marcelo Mirisola ironizou: 'Espero que escrevam grandes livros e relatem suas experiências na festa de Paraty do próximo ano.' Mas qualquer lista causaria polêmica. É difícil hoje no Brasil, por incrível que pareça, listar apenas 16 bons escritores. Apareceram muitos nos últimos anos. De todos os cantos. Sem contar os novos dramaturgos. No país em que ninguém lê, nunca se escreveu tanto, nunca se viu uma literatura tão dinâmica, diversificada, de tanque cheio. Porque no país em que ninguém lê há muito sobre o que escrever. Será que é porque ninguém lê?


Escrito por anselmo às 18h40
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CADA INDIVÍDUO PENSA DO SEU JEITO

 

Aprendi com meu velho pai que às vezes é bom ficar somente observando. Eu sempre converso com meus amigos e ali naquela mesa posso discordar deles ou concordar com a linha de raciocínio deles. Todo mundo sabe que não concordo com certas opiniões.

 Eu vim da periferia e conheço bem os códigos de uma vida dura. A esperança nem sempre caminha ao lado de todos. Eu tenho meus sonhos e jamais me iludo com o inatingível. Sou realista. Traço minha vida sempre me preparando contra os arranhões. Não sou adepto do suicídio. Tenho um filho pequeno e uma mulher que me fazem continuar tocando em frente. Estou com 33 anos e não tenho tempo a perder. O negócio é trabalhar e se divertir. Prefiro ter amigos. Não posso nunca ser responsabilizado pela opinião dos meus amigos. Cada um pensa e escreve o que quer. O sebo do Bac é um local de amigos. A discussão é sempre inteligente e necessária. O homem tem  direito ao debate. O homem sempre trocou idéias e experiências deste sua formação primata. Eu escrevo isto hoje porque respeito gregos e troianos. Admiro uns & outros. Mas como homem discordo de muita coisa que vejo diante da minha retina. Quando sou chamado numa discussão expresso minha opinião e assino embaixo. Mas também não desejo que meu nome seja atrelado a opiniões nas quais não escrevi e não assinei. O tempo vai passando e enquanto ouço velhas canções, fico aqui olhando meu filho correr e penso sempre: “ Será que o mundo me permitirá ter esta visão por quanto tempo?”  



Escrito por anselmo às 22h42
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