Márcia Denser*
Coluna passada falei do Loyola, cronista, nesta é a vez de Marcelo Mirisola, cujas terríveis crônicas virtuais, publicadas originalmente no site da AOL (América On-Line) foram reunidas no livro O homem da quitinete de marfim (Record, 238 págs.), com lançamento marcado para o próximo dia 7, a partir das 17h, no Sebo do Bactéria aqui em Sampa.
A propósito, para quem padece de eventismo & modismos afins, tanto a literatura eletrônica quanto a crônica estão rigorosamente na ordem do dia: de um lado, a chegada às livrarias de As cem melhores crônicas brasileiras (Objetiva, 360 págs.) prometendo mapear este gênero, que dizem ser brasileiro, desde o século XIX até nossos dias, e de outro, as “tours” virtuais de escritores que passarão a exibir-se a si próprios e suas obras em vídeo e CD-room em livrarias e outros locais do ramo (O Globo, 23/6), tudo isso excluindo a própria Flip, que acontece inevitavelmente – fiel como o mau hálito, como uma espécie de maldição, de destino adverso – neste mês de julho em Paraty.
Aliás, a famosa crônica do Mirisola sobre a Flip/2006 sofreu censura e não sai neste livro. Ótimo. Assim, com a consciência tranqüila, posso excluir duplamente a Flip do meu texto. Só lamento a ausência do texto dele sobre a Flip, este sim obrigatório, necessário, canônico mesmo sem estar publicado, canônico porque censurado. Devia ser adotado nas escolas, um dos raros antídotos contra o embotamento progressivo da nação.
Eu podia dizer que Mirisola é o escritor mais original que vi surgir em trinta anos de vivência e convivência com várias gerações de poetas, prosadores, nacionais e estrangeiros, amadores e profissionais, e como tal ele ocupa um estatuto único em nossas letras. Podia e digo, só que não parece fazer nenhuma diferença para os picaretas de plantão nas letras, todos felicíssimos dando e recebendo mutuamente jabutis e paratys no circuito fechado da mediocridade que não só se generaliza como universaliza. Na próxima encarnação farei curso de emburrecimento intensivo, eu juro. O ibope é garantido!
Eu podia dizer que Mirisola inova ao assinar a orelha do próprio livro, mas seria mentira, porque depois de sete livros e dez anos de carreira, ninguém ignora sua arrogância, seu humor perverso, sua crueldade insensata e gratuita, mas ninguém parece perceber – ou se percebe, não diz – que é ele quem se fode, se crucifica, se auto-imola, é só ele, sempre ele. Nem sacrificante nem sacrificado, é ele próprio o sacrifício.
Então se ninguém se machuca nem se prejudica, qual é o grilo?
O grilo é que genialidade não se premedita.
continua...