TIRANDO DO BAÚ SEGUNDA-FEIRA Havia algo de diferente naquele olhar. Os pratos jogados na pia mostravam o atual desleixo. Conversas na cama já se tornara algo corriqueiro. Diversas bitucas de cigarro denunciavam a ansiedade no ar. Como um míope fechava os olhos e não enxergava nenhuma evidência plausível para tais atitudes. Os livros na estante com dedicatórias ilustravam um tempo de intimidade passada. Álbuns de fotografias lotados de pessoas que já se foram denunciavam as perdas ao longo dos anos. Rugas na frente do espelho insistiam em tirar o ar sexy de seu corpo. Calmantes misturados no copo de conhaque não resolviam o aperto de seu coração. Queria falar algo inteligente para quebrar o gelo imposto ao longo do tempo. Algo belo e fraternal. Palavras cheias de vida. Frases diferentes daquelas destiladas por bocas cariadas no final de uma sessão de filme com rótulo cult. Procurei os familiares e ninguém sabia o efeito da tempestade. O aquecedor pifou. Nossas roupas rasgaram-se. Condomínios atrasados. Contas jogadas na escrivaninha. O gás ligado numa segunda –feira escondia no meio de um odor acre o corpo que um dia desejei e que agora tornara-se cinza e gelado.
Escrito por anselmo às 20h58
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